Comer a fruta direto do pé
Outro dia vi uma senhora andando meio curvada por um quintal com uma vasilha qualquer, talvez um pote de sorvete ou coisa parecida. Era uma preta velha1 de uns setenta e tantos anos, usando um lenço branco na cabeça e um vestido já meio surrado, também branco. Ela parecia morar ali mesmo, numa casinha amarela lá no fundo do terreno, ao lado de um barracão, entre plantas, algumas galinhas e acho que até um cabrito. Eu já estava atrasado para o trabalho e o ônibus resolveu quebrar justo ali. Enquanto aguardava o próximo ônibus, mastiguei alguma coisa para tentar enganar a fome, pois não tive tempo para almoçar. Enquanto isso, a senhorinha, sem pressa nenhuma, colhia pitanga ou acerola e as guardava na vasilha. Vez ou outra, atirava a fruta direto na boca e parecia se regozijar… Lembrei da casa da minha avó e comecei a me questionar em: por que é que a gente parou de comer fruta do pé?
A comida é um dos grandes códigos que comunicam a identidade de um povo. Cada grupo, sociedade ou núcleo familiar tem suas formas de comer: modos de produzir ou ter acesso a alimentos; tipos específicos de alimento, maneiras de preparar e cozinhar, modos de comer, bem como o tempo dedicado a cada uma das refeições. Um antropólogo niteroiense chegou mesmo a dizer que a comida permite fazer “uma importante mediação entre a cabeça e a barriga, entre o corpo e a alma”2. Li num outro livro3 que os seres humanos foram diversificando seus hábitos de acordo com a evolução da espécie e a tecnologia disponível em cada época. Mas o que difere a minha época da época daquela senhora? Ou, melhor, que diferença há entre a gente e aquela senhora?
Como falei antes, a relação com a comida foi se diversificando ao longo do tempo, mas a partir da década de 1970, o mundo conhece o fenômeno da globalização, conhecido como a compressão do espaço e do tempo4. Parece que tudo mudou muito rápido e a gente, que tem todo o tempo do mundo, mas vive sem tempo, passou a nem perceber o que come. Parece que o ônibus do tempo passou a correr como um louco e a gente está agora meio perdido no fast food de nossas vidas McDonaldizadas5. Nós não temos tempo para comer, por isso compramos comida pronta, industrializada. Se a gente tenta ler o rótulo, acha mesmo que aquilo foi feito num laboratório da NASA: o que é glutamato monossódico, amarelo de quinoleína ou ácido sórbico? É a tal da comida ultraprocessada. Num modelo de vida que exige sermos cada vez mais fast (rápido), a gente acaba comendo cada vez menos food (comida) de verdade.
Aquela senhora, que colhe tranquilamente as frutas que brotam das árvores do seu terreiro, certamente conhece alguma forma de frear o ônibus do tempo. Aliás, no Brasil, os terreiros de religiões de matriz africana nos tem mostrado outras formas de lidar com o tempo, com a terra e, claro, com a comida. Para eles, a forma de vida herdada dos seus ancestrais africanos é mantida com muito afinco e, na hora de comer, não é diferente. Para os povos de terreiro ou, como prefiro chamar, povos tradicionais de matriz africana, comer é ritual. Comer significa reconexão, ação, partilha e troca de energia entre pessoas, animais, plantas e divindades6. Além disso, para eles, tudo come (a árvore, o rio, a terra, as pessoas, etc.) e de tudo se come7. Seus princípios civilizatórios (e religiosos) impedem também o desperdício.

A partir da antropologia, podemos dizer que essas práticas alimentares tradicionais são carregadas de significados e valores. Ao divinizar a natureza e a ancestralidade, entender que toda a natureza é portadora de vida e de axé e postular que tudo quanto é vivo precisa comer, o ato de comer e o próprio alimento tradicional se tornam culturalmente diferenciados. A tradição alimentar desses povos se baseia em processos pautados na sustentabilidade, na diversidade de alimentos, no cultivo comunitário e no respeito a todas as formas de vida. Essas práticas também contribuem para garantir a segurança alimentar e nutricional das comunidades, isto é, ajudam a garantir o “direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde, que respeitem a diversidade cultural e que sejam ambiental, cultural econômica e socialmente sustentáveis”8.
Depois de alguns minutos, um novo ônibus chegou e tive que me despedir daquela cena, mas segui pensando nela. A avalanche causada pela globalização e pela fome do sistema social e econômico dominante, transformou profundamente as nossas formas de comer e viver, mas talvez, na correria da cidade, a gente sequer se deu conta. Mas, e você, quando foi a última vez que comeu uma fruta direto do pé?
- Pretos-velhos são entidades espirituais cultuadas em religiões de matriz africana que representam ancestrais negros que foram escravizados. Eles simbolizam sabedoria, paciência e humildade, dão conselhos aos que com eles se consultam e ressignificam o sofrimento vivido como fonte de autoridade moral e espiritual. ↩︎
- DAMATTA, Roberto. O que faz o Brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1986. p. 52. ↩︎
- FREIXA, Dolores; CHAVES, Guta. Gastronomia no Brasil e no mundo. 2. ed. Rio de Janeiro:
Senac Nacional, 2012. ↩︎ - HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2002. ↩︎
- RITZER, George. La McDonaldización de la sociedad. Trad. Miguel Sautié. México: Editorial Popular S. A., 2006. ↩︎
- EGGER, Daniela da Silva. SILVA, Vanessa Cancian. Caderno de experiências em saúde e povos tradicionais de matriz africana: para a promoção de soberania e segurança alimentar e nutricional. Rio de Janeiro: Ed. dos Autores: 2022. p. 59 ↩︎
- LODY, Raul. O povo de santo: religião, história e cultura dos orixás, voduns, inquices e caboclos. 2 ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2006. p. 88. ↩︎
- MATOS, Camila Carvalho de Souza Amorim; ARANTES, Luana Lazzeri; SILVA NETO, José Pedro da;
NOGUEIRA, Regina Goulart. Caderno de experiência de pesquisa em sistemas alimentares dos povos tradicionais de matriz africana: soberania e segurança alimentar e nutricional em interface com a saúde coletiva. Rio de Janeiro: Daniela Silva Egger, 2023. p. 16. ↩︎
